Com o lançamento do Tesouro Reserva, um dos principais pilares do financiamento imobiliário no Brasil - a caderneta de poupança - se vê ameaçado por um concorrente direto, cujo surgimento pode encarecer o crédito disponível para a aquisição da casa própria. Isso porque o novo título prevê rendimento equivalente à taxa básica de juros - atualmente em 14,25% ao ano -, dispõe de liquidez diária e conta com a garantia do Tesouro Nacional, características mais vantajosas para o investidor pessoa física quem planeja constituir uma reserva financeira.
A novidade surge simultaneamente ao crescimento das saídas líquidas da poupança. Nos primeiros quatro meses de 2026, os saques superaram os depósitos, assim como havia ocorrido em 2025, quinto ano consecutivo em que o volume de retiradas disparou um alerta para os agentes financeiros e o mercado imobiliário. Para se ter ideia, no ano passado, os saques ultrapassaram R$ 85 bilhões, terceiro pior resultado da série histórica, segundo o Banco Central (BC).
Em paralelo, entre o dia 11 de maio, data em que foi lançado, e meados de junho, o Tesouro Reserva captou cerca de R$ 2 bilhões.
Hoje, 65% de todo o financiamento provém da poupança, principal fonte de recursos empregados pelas instituições financeiras para custear o crédito disponível para a compra de casas, apartamentos e terrenos. Quando esse volume se torna mais escasso, elas se veem obrigadas a recorrer a alternativas mais dispendiosas - Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras Imobiliárias Garantidas (LIGs), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Depósito Bancário (CDBs), entre outras -, o que tende a encarecer o crédito para o consumidor. Com isso, a oferta cai e o mercado imobiliário é imediatamente impactado.
Tradição
Embora o quadro já seja visto com preocupação, especialistas creem, no entanto, que a migração da caderneta de poupança para o Tesouro Reserva não se dará de forma imediata. Em primeiro lugar, em razão da tradição que liga o brasileiro à poupança; em segundo, ao nível ainda incipiente de educação financeira no país - constatação amparada em números: dados do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) registram 245,5 milhões de contas no Brasil, ao mesmo tempo que pesquisas do governo indicam que 63% dos brasileiros ainda enxergam na caderneta uma opção segura para poupar o que sobra do rendimento mensal.
Preocupação extra
Outro motivo de alerta para o setor imobiliário tem sido a recente aprovação do Projeto de Lei 2465/2026, que prorrogou até 2030 a utilização de recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) em operações de crédito destinadas a entidades hospitalares filantrópicas. Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a medida pode reduzir a capacidade do país de investir em habitação, saneamento básico e infraestrutura urbana.
A matéria ainda aguarda manifestação do Executivo, que tem prazo até 6 de agosto para se posicionar a respeito.
Registro de Imóveis do Brasil (com informações da
Abecip e
CBIC)