Elaborado com a participação de representantes do governo federal, de instituições financeiras e do setor da construção, o novo modelo brasileiro de crédito imobiliário, que estará em pleno vigor a partir do próximo ano, poderá resultar em taxas de juros mais elevadas para os compradores. O objetivo central da proposta é fazer com que os bancos dependam cada vez menos da poupança e passem a utilizar instrumentos do mercado de capitais, como letras imobiliárias, para financiar a compra da casa própria.
Até o momento, não está claro quais serão os indexadores utilizados. E, ao mesmo tempo que os bancos precisam administrar o risco financeiro das operações, os compradores buscam contratos e prestações ao máximo previsíveis, tendo em vista o caráter de longo prazo da operação. E é no intervalo entre o risco de quem oferece crédito e a busca por previsibilidade de quem toma um empréstimo que reside a preocupação do mercado.
O assunto foi tema do Abecip Summit 2026, evento realizado na semana passada pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), que buscou lançar luz sobre o futuro da modalidade.
Volatilidade
Especialistas que por lá passaram observaram que um funding de mercado se encontra naturalmente sujeito à volatilidade que o caracteriza. Nesse sentido, a questão é saber como se comportarão as taxas a serem disponibilizadas aos clientes.
O Banco Central, por sua vez, fez advertências quanto ao risco de o custo dos financiamentos subir à medida que os bancos passarem a captar mais recursos junto ao mercado de capitais. Atualmente, os juros do Sistema Financeiro de Habitação (SFH) são limitados a 12% ao ano sobre o indexador - regra que pode ser desafiadora, se considerado o fato de que o custo de captação por meio de instrumentos de mercado tende a acompanhar o ambiente econômico.
O novo modelo prevê que 80% dos recursos deverão ser destinados a operações enquadradas no SFH, enquanto a poupança terá função complementar, de auxiliar na redução do custo das operações.
Demanda elevada
A transição tem se dado em um momento em que a procura por crédito imobiliário é crescente, a despeito dos juros elevados. De janeiro a junho, as concessões para compra e construção de imóveis cresceram 23% antes igual intervalo de 2025, segundo a Abecip. Cerca de 850 mil imóveis foram financiados nos seis primeiros meses do ano, seja por meio do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) ou de carteiras livres.
Em movimento inverso, nos últimos cinco anos, a poupança registrou retirada líquida de R$ 273 bilhões. Por esse motivo, o Banco Central seguirá avaliando a implantação do novo modelo, de modo a ajustá-lo, se for necessário.